Nas ondas diárias das rádios AM

publicado em 11/07 às 19h32

Os recados de um ouvinte para outro ocupavam horas da programação diária das rádios AM, há cerca de três décadas. O serviço, prestado principalmente por emissoras de cidades de menor porte, perdeu espaço diante dos avanços da comunicação, como o telefone celular e as ferramentas da internet, mas continua vivo e, para muitas comunidades, ainda é a única forma de saber que um parente passou no vestibular ou que o filho dele nasceu, por exemplo. 

Em Araguari e Ituiutaba, cidades do Triângulo Mineiro com 111 mil e 96 mil habitantes respectivamente, os locutores das rádios com maior audiência afirmam que os avisos são variados. “Os recados são para marcação de consultas, avisar que fulano faleceu e será sepultado em determinado dia, que o filho de fulana nasceu, que documentos estão prontos, beltrano chega tal dia ou que a criança vai passar o fim de semana na fazenda e alguém deve buscar no local combinado”, disse o Luiz Humberto Borges, locutor da Rádio Araguari AM 930.

A professora Letícia Romão, de 28 anos, é ouvinte assídua e utiliza a rádio para mandar avisos para a prima e para o namorado, que moram na comunidade de Barreirão, a 30 quilômetros de Araguari. Segundo ela, o sinal de celular é ruim no local, diferentemente da rádio, que funciona perfeitamente. “Sempre dá certo. Mando os recados e, logo depois, minha prima me liga do distrito de Florestina dizendo que recebeu. É como mantemos contato.”

 

De compra e venda a reencontros

 

Radialista há 25 anos e locutor da Rádio Difusora 1470, de Ituiutaba, Ismael Barbosa ressalta a contribuição que o rádio ainda traz para a comunidade. Os avisos enviados pelos ouvintes podem ser usados para encontrar animais de estimação, compra e venda de objetos, reencontros familiares. “Recentemente, por meio dos recados, um promotor de Justiça conseguiu encontrar na cidade familiares que uma funcionária dele, de Iturama [no Pontal do Triângulo], estava procurando havia 30 anos”, disse.

De acordo com o promotor Paulo Henrique Delicole, uma diarista que prestou serviços para ele quando residia em Iturama tinha comentado que deixou Ituiutaba quando era pequena e que tinha perdido contato com a mãe e as irmãs. “Quando me mudei para Ituiutaba, me lembrei do caso. Fizemos um apelo no ar e, em semanas, uma irmã dela se identificou e então se reencontraram. Como viviam na zona rural, só foi possível por causa do rádio”, afirmou o promotor.

Na avaliação do locutor da Rádio Araguari, Limírio Martins, de 62 anos, radialista há 47 anos, a rádio AM ‘fala’ de forma mais direta com os ouvintes. “Há proximidade, por isso as pessoas confiam os recados”, afirmou.

Mesmo assim, os avisos perderam força com a chegada dos celulares e da internet. Martins, que é apresentador do programa “Raízes do Sertão”, diz que, há 20 anos, a rádio recebia entre 30 e 40 cartas por dia com avisos para serem transmitidos. Hoje, muitas pessoas da zona rural ligam, mas os recados são poucos.

 

Situações inusitadas 

 

Locutores de rádios AM recordam de situações inusitadas geradas a partir de recados transmitidos durante seus programas. Ismael Barbosa, radialista da Difusora AM de Ituiutaba há mais de 20 anos, lembra da ocasião em que um ouvinte solicitou que fosse anunciado no ar que sua casa no bairro Independência, estava sendo assombrada. “Pedras se movimentavam sozinhas. O aviso era para que outras pessoas tivessem cuidado ao passar pela rua. Isso movimentou religiosos e a casa chegou a ser benzida. Muitos ouvintes ligavam para saber mais detalhes. No desfecho, os proprietários se mudaram”, disse.

Segundo o locutor Luiz Humberto Borges, de Araguari, também chegam à rádio recados destinados a detentos. “A mulher de um presidiário pediu que avisássemos a ele que o advogado iria visitá-lo em tal dia, tal horário, para tratar da alternativa para o caso. É um serviço que prestamos”, afirmou.

Fonte: CORREIO DE UBERLÂNDIA